Meu Adorável Filho


13/07/2012


 

© Copyright 2012, Anthony Olliver.

 

 

 

1ª edição

 

1ª impressão

 

(2012)

 

Todos os direitos reservados.

Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida - em qualquer meio ou forma -, nem apropriada e estocada sem a expressa autorização de Anthony Olliver.

 

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Olliver, Anthony

 

MEU ADORÁVEL FILHO. Anthony Olliver. Pará de Minas, MG: Editora Virtualbooks,  2012.14x20 cm.  

 

 ISBN 978-85-7953-648-9

 

1. Literatura brasileira. Brasil. Título.

                                                                                  CDD- B869

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Livro editado pela

VIRTUALBOOKS EDITORA E LIVRARIA LTDA.

Rua Benedito Valadares, 560 - centro –

35660-630- Pará de Minas - MG - Brasil

Tel.: (37) 32316653 - e-mail: vbooks01@terra.com.br

http://www.virtualbooks.com.br

 

 

 

 

 

 

 Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer, não se desviará dele.  

                                                      Salomão


 

 

                            

 

 

                              Agradecimento

 

   À minha família e amigos pelo apoio, a todos os leitores por aceitarem um pouco da minha imaginação. Aos críticos por me ajudarem a corrigir velhos vícios literários. À equipe da editora. E, especialmente, a esses amigos que sem eles esse livro talvez não pudesse existir: Renata Cássia e Alessandra Costa pelas contribuições geográficas e ao meu primo, Wilson, por tirar algumas dúvidas de ortografia e gramática, vocês me ajudaram muito.


 

 

 

 

                                Dedicatória

 

   A todos os leitores, especialmente aos timonenses. Povo sofrido e guerreiro. Á minha grande amiga e uma das minhas inspiradoras, Lia Carsan (escritora paraense). Aos meus caros confrades da ALTEC e para todo amante da literatura que, como eu, acredita ser possível, por meio das letras, ter um mundo melhor, mesmo que sendo esse mundo fictício.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

               Homenagem a Higino Cunha, H. Dobal, Torquato Neto, Da Costa e Silva e a todos os grandes poetas e escritores que um dia habitaram em nossa tão querida Timon-Teresina.

Escrito por Anthony Olliver às 18h40
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Teresina, 28 de agosto de 1980

           

   E estavam enfim casados e abençoados por Deus nas palavras do reverendo Raimundo Nonato. Carlos sempre esperara por aquele dia. Desde que conhecera Raquel, aquela moça que cantava na igreja com uma voz angelical, seu coração apaixonara-se por ela.

   Começaram então o namoro. Com o consentimento dos pais de ambos, logo noivaram e marcaram o casamento, que agora estava sendo realizado naquela pequena igreja batista de um determinado bairro de Teresina.

   Carlos era um respeitado comerciante na capital piauiense. Desde muito novo, ajudara o pai nos negócios e com a morte deste, tomara definitivamente de conta do comércio.

   - Estão casados. O noivo pode beijar a noiva – falou o reverendo Raimundo Nonato.

   Todos os convidados começaram, um por um, a cumprimentar os noivos e a felicitá-los. Carlos parecia um pouco nervoso. Raquel bem mais calma.

   Os dois recém-casados saíram então da igreja cobertos por uma chuva de arroz jogada por um pequeno grupo de jovens. Os dois, com certeza, seriam felizes para sempre. Carlos era um jovem que tinha a cabeça no lugar desde muito novo. Sempre organizado e religioso. Todas as garotas da igreja desejavam ter uma pessoa como ele ao lado. É claro que Raquel sentia-se orgulhosa por tê-lo como esposo. Mas ela também era uma jovem exemplar. Muito obediente aos pais e dedicada à igreja, além de ter uma voz linda que encantava a todos.

   Aqueles dois foram realmente feitos um para o outro. Ninguém tinha dúvida disso. Um sonho realizado, tanto de Carlos, quanto de Raquel.

   Carlos saiu segurando a mão da sua agora esposa, Raquel. Gentilmente, abriu a porta do carona para ela e entrou também na sua caminhonete. Sorriu-lhe e falou:

   - Agora só falta vir o nosso filhinho para o sonho ser completo.

   - Com certeza, amor – responde Raquel, sorrindo. Também espero que não demore muito.

 

 

Teresina, 06 de Dezembro de 1980

 

   - Amor, deu positivo meu teste de gravidez!

   -Que ótimo, amor! – falou Carlos ao receber a esperada notícia da sua esposa.

    -Acho que vai ser um homem.

    -Eu queria muito que fosse.

   Já fazia mais de três meses que Carlos e Raquel haviam se casado. Os dois desejavam muito ter um filho e agora Deus os abençoara com um filhinho, que dentro de nove meses, viria ao mundo.

Escrito por Anthony Olliver às 18h38
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 Timon 03 de setembro de 1981

 

   Carlos estava na inauguração de uma filial da sua loja quando o celular tocou. Era sua irmã Elizabeth:

-Alô – falou ele.

-Oi, Carlos – falou Elizabeth em um tom meio de desespero e alegria ao mesmo tempo. – Corre para a maternidade rápido que teu filho está nascendo.

   Ele saiu correndo como louco, jogou um dos celulares nas mãos de Roberto, seu assessor e um dos amigos mais chegados. Roberto fora praticamente criado pelo pai de Carlos. Havia perdido os pais ainda quando criança e, desde então, ficara sob os cuidados de Antônio, pai de Carlos. Com a morte de Antônio, tornou-se o braço direito do seu irmão adotivo.

   Carlos pegou a avenida que dá para a maternidade. O trânsito estava um pouco lento. Na época, era bem melhor que nos dias de hoje, mas já era uma situação caótica na capital piauiense.

   Enfim, chegou à maternidade. Estacionou rapidamente e entrou ofegante porta adentro. Seu filho já havia nascido.

   Era lindo aquele anjinho que descera do céu para abençoar aquele jovem casal. Raquel tinha apenas 20 anos e Carlos 22. Apesar da pouca idade, ele já era um bem sucedido comerciante com duas lojas em Teresina e agora mais uma em Timon, a cidade que, como dizia Elizabeth, era a continuação da capital piauiense.

   Naquela época, Timon estava um pouco tomada pela violência, os criminosos de Teresina vinham abrigar-se naquele “paraíso” sem segurança e, ali, praticavam toda sorte de delitos, desde simples furtos até homicídio.

   Apesar do clima não muito calmo da cidade de Timon, Carlos decidira investir ali, pois sabia ser um lugar estratégico para o comércio, por ser uma cidade que além de próxima à capital piauiense, era zona de tráfego para cidades importantes como Caxias e outras.

   Ele só temia o aumento da criminalidade, tanto em Teresina, quanto Timon, pela segurança do seu filho. E desde então começou a programar um belo futuro para aquele recém-nascido, como faz todo pai que pensa que o dinheiro é tudo na vida de uma pessoa.

   Carlos Jr – esse era o nome do bebê – estudaria numa ótima escola, formar-se-ia ou em medicina ou em direito e aprenderia pelo menos inglês e francês, já que Carlos não gostava muito de espanhol, pois dizia ser uma língua de pessoas sem classe.

 

 

Teresina 03 de outubro de 1981

 

   - Dorme neném que a cuca vem aí – Raquel cantava alegremente olhando aquele rostinho meigo do filho. Era tão inocente, puro e sem nenhuma maldade aquele pequenino ser.

   Seria tão bom se a gente crescesse e continuasse na mesma pureza de quando criança, mas infelizmente a gente cresce e vai aprendendo muitas coisas e, a maioria dessas coisas, são maldades.

  - Oi, amor. – falou Carlos, que acabava de chegar do trabalho. Como está o nosso herói? Comprei um ursinho de presente pra ele.

  - Ah, que fofo, amor, hoje nosso Carlinhos está completando um mesinho, não é?

  - É sim, amor. Daqui uns dias ele já está grandão e vai ajudar o pai.

   Depois de dar um beijo no rosto do bebê e outro na testa de Raquel, Carlos foi ao banheiro tomar um refrescante banho, depois de um dia entediante ali no comércio.

 

 

Timon, Praça São José 31 de maio de 2002

 

- Vamos rápido, molengas, que a polícia pode aparecer a qualquer momento.

   Nalbert, Filipe e Marcos Antônio entraram rapidamente na S10 cabine dupla, pilotada por Júnior.

  - Olha aqui, seu idiota – falou Júnior, apontando o dedo na cara de Nalbert. Nunca mais cometa uma besteira como essa, tá me entendendo?

  - Sim, Júnior. Entendi. – falou timidamente Nalbert.

   Os três tinham tentado assaltar uma lojinha nas proximidades da Praça São José, um dos funcionários reagiu. Nalbert nervoso atirou no ombro do funcionário.

   Carlos Jr. era o líder do pequeno bando que atemorizava a cidade de Timon. Saía de Teresina com seus dois colegas de faculdade e com Nalbert, filho de Roberto e fazia todo tipo de atrocidade que o ser humano é capaz de imaginar.

   Drogas, nem ele, nem seus amigos usavam. Ele sabia que aquilo fazia mal à saúde. Além de não usar, proibia os amigos também.

   Nalbert era filho único de Roberto – o braço direito de Carlos, pai do Júnior – criado com muito mimo pelos pais, que sempre o tratavam como se fosse um bebê, tornou-se presa fácil para Júnior usar como escudo. Carlos Jr desde criança, quando fazia alguma travessura, não pensava duas vezes antes de por a culpa em Nalbert. Em troca dessa cumplicidade, Nalbert ganhava popularidade, pois sem Carlos como amigo, aquele menino mimado, com cara de garota, nunca teria a mínima chance com nenhuma das garotas da escola. Os dois cresceram e junto com eles aquela vassalagem que os dois tinham um com o outro.

Escrito por Anthony Olliver às 18h37
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Teresina 31 de maio de 2002

 

  - Boa noite. – falou mansamente o sargento Marcondes, coçando o bigode, quando Carlos veio à porta atendê-lo.

  - Já sei – falou Carlos sem ao menos responder ao “boa noite”. – mais uma que meu filho apronta, não é?

  - Acertou.

  - Quanto custa?

  - Mil paus e três dias no xadrez.

  - E a gente não pode negociar esses dias, sargento?

  - Dois mil, e não falamos mais nisso. Mas os amigos do seu filho vão ficar detidos três dias.

  - Com eles não me importo. Não sustento filho de ninguém. – falou Carlos.

  - Está certo. Tenha uma boa noite.

  - Até logo.

   Carlos foi para o escritório. Teria que dar um jeito naquela situação. O filho tinha se tornado um marginal. Nunca imaginara chegar aquele ponto.

  Liga a tevê no Comedy central para ver as besteiras ditas em Stand Up, tentar esquecer um pouco as crueldades da vida.

  Pensa na vida há 20 anos. Dois anos de casado. Vivendo aquele momento que podemos chamar de o clímax da vida. O filho aprendendo a caminhar, dando passos engraçados e matando de rir Raquel e ele. Oh, Raquel! Lembra-se da ex-mulher que pedira o divórcio por não mais suportar aquela vida de materialismo. Onde o dinheiro estava acima de tudo, até do próprio Deus. Um Deus que, nas palavras do reverendo Raimundo Nonato, iria abençoar aquele casamento. Mas Carlos sabia que se tivesse – e tinha – um culpado naquela história era ele.

   Raquel vivia em Esperantina, uma cidade do interior piauiense. Era uma bem sucedida advogada e criara uma escola de música para as crianças carentes da igreja batista, que frequentava. Ela, com certeza, não sentia a mínima saudade do ex-marido. Do filho, não sabia muito. Via-o apenas uma vez por mês. Sabia que ele era um estudante de direito e só. Carlos não queria que ela soubesse da subvida de criminalidade que o filho vivia.

Teresina 1º de junho de 2002

 

   Os dois amigos de Júnior foram presos por policiais mandados pelo sargento Marcondes. Ele entrou no quarto e jogou-se na cama, pensando na burrada que cometeram.

   Ele então se lembrou da época em que iniciou a faculdade. Não aprendeu quase nada da matéria explicada pelos professores, mas aprendeu as gírias e o jeitão malandro dos colegas de sala. Os jovens brasileiros não estão muito preocupados em aprender nada útil, até por que não pensam nem no futuro nem no passado e, muito pior, em ninguém. Pra falar a verdade eles só vivem, porque pensar dar um trabalho danado. E também se você tem um pai boboca e rico que banca tudo pra você sem que você precise mover uma palha, por que se preocupar com nada? E quem não tem nada, como Nalbert, pensa que tem. E vai vivendo por aí, achando que está enganando os outros, enquanto engana-se a si mesmo.

   Ninguém precisa estudar. Estudar dá trabalho. É bem melhor ver filme americano de play boys e patricinhas de luxo e pensar que é igual a eles. Ir à faculdade com aquela calça e camiseta falsificada que parece ser de grife.  Ver as patricinhas todas se exibindo pra seu amigo play boy, filho de papaizinho e pensar que estão se exibindo pra você. Beber cerveja pensando que isso faz de você aquele tal jogador de futebol, só por que ele faz o comercial da marca que você bebe. Enfim, estudar é pra quem não quer ser ninguém na vida. Não vê as garotas zoando os Nerds da faculdade que vivem o tempo todo com a cara enfiada nos livros? Pena que essas garotas daqui uns dez anos, talvez, abandonem o curso e tentem vender seus corpos para alguns desses Nerds, (agora bem sucedidos empresários) numa boate de luxo.

 

Esperantina, 1º de junho de 2002

 

   Raquel estava tentando não pensar naquilo, mas era impossível. Carlos chegando a casa, bêbado e chutando tudo. Batendo nela e aterrorizando aquele pequeno menino de apenas 10 anos. Mesmo contra a vontade dos pais, ela sabia que o divórcio fora a coisa mais certa que tinha feito.

   Graças a Deus que o Júnior não ficara com nenhum trauma daquelas constantes brigas – pensou ela.

  Pensou no dia em que Júnior chegou a casa e viu o pai agarrado com a empregada no sofá e foi chorando falar pra ela. Ela já sabia que Carlos a traía, mas queria suportar mais uns dias. Pois os dois estavam casados e abençoados na igreja. Não era justo ela separar uma união feita por Deus. Mas só agora ela percebia que quem estava desfazendo aquela união era Carlos e não ela.

   - O que houve, dona Raquel – pergunta Maria (assistente de Raquel), vendo-a chorando.

  - Por que a vida é tão injusta, Maria?

   - Você está falando isso pelo seu filho, dona... – calou-se percebendo o deslize que tinha cometido.

   Maria era talvez a única amiga de Raquel que sabia a verdade sobre seu filho. Não contava por que Carlos a ameaçava, dizendo que se Raquel soubesse com certeza iria enlouquecer e ela, Maria, seria a culpada.

   - O que tem meu filho, Maria?

   -Nada não, dona Raquel. Ele mora longe da senhora, não é? 

  -Sim.

   Raquel viu pelo olhar de Maria que ela estava escondendo alguma coisa sobre Júnior.

 

 

Teresina

 

   - Oi, Raquel. – Carlos atendeu o celular.

  - Olha, já estou sabendo tudo sobre meu filho. Eu sabia que ficando aí com você, ele só iria ter má influência mesmo, seu idiota!

  - A Maria que lhe falou, não foi?

 - Sim. Hoje mesmo estarei aí pra trazer meu filho pra Esperantina.

  - Não sei se é uma boa ideia. E também duvido muito que o Júnior acei...  Droga! Desligou o telefone!

Escrito por Anthony Olliver às 18h36
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 Timon, em um barzinho quase vazio, às 22h00min

 

  -Oi, Silvia. Estou precisando de duas garotas novinhas. Se possível, adolescentes e gostosas, viu?

  -É para algum gringo, Júnior?

  -Claro. Um alemão. Manda pra esse hotel – falou ele, entregando um cartão a Sílvia.

  -Ok.

   Sílvia era uma garota de classe média, filha do advogado Paulo Arruda e da Dra. Márcia. Entrou na faculdade de direito, mas desistiu no segundo período. Conhecera Júnior na faculdade e depois que desistiu do curso, montou uma pequena agência de prostitutas de luxo. As garotas eram na maioria adolescentes, filhas de pais ricos de cidades do interior, que foram colocadas em escolas particulares em Teresina. Como aquelas garotas viviam acostumadas com um bom padrão de vida e a mesada que os pais mandavam era pouca, elas viam na prostituição um ótimo meio para ganhar dinheiro fácil.

   Sílvia tinha 25 anos. Não se envolvia muito com ninguém, mas costumava ficar nas festas com Júnior, quando este não estava com alguma garota. Ele só arranjava as garotas de Sílvia, especialmente, para os gringos amigos do seu pai, mas ele mesmo não queria. Sempre dizia que mulher que se paga pra ter, não vale nem um centavo. Embora Sílvia fosse já um pouco madura, era muito linda: 1,75 cm de altura, 56 kg e um corpo bem definido, de matar qualquer modelo de inveja.

   Júnior não era um belo rapaz, embora não fosse também tão feio. Era pardo, tinha 1,78 cm de altura, 60 kg e tinha um início de calvície herdada do pai.

   - E quando a gente vai sair, Júnior? Estou tão carente, meu amor. – falou Sílvia, aproximando o rosto do de Júnior.

  - Estou muito ocupado, Sílvia – falou ele desviando o rosto. Estou trabalhando muito.

   Carlos Jr. pediu a conta ao garçom, pagou. Despediu-se da amuada Sílvia com um beijo no rosto e saiu falando:

  - Não esquece as garotas, tá?

  - Fica frio.

   Entrou no seu Corola preto e saiu cantando pneu na esquina. Fez sinal com a mão para um policial que estava cuidando da segurança ali no bairro Cidade Nova.

   Sílvia também saiu do bar, entrou no carro e saiu lentamente pelas ruas de Timon. As ruas praticamente desertas. Passou observando uma pequena praça, onde garotos fumavam cigarros de maconhas. Que mundo perdido – pensou ela. Algumas daquelas crianças deveriam ter, quando muito, doze anos.

   O relógio marcava meia noite quando Sílvia entrou no portão do condomínio dos pais em Teresina.

   Depois de deixar o carro na garagem, abriu a porta e, depois de ver que não tinha nada de interessante na geladeira, resolveu dormir. Jogou-se, vestida e de sandálias, na cama e dormiu rapidamente.

   Naquele momento, Júnior também acabava de chegar à mansão do pai. Ele não esperava encontrar sua mãe ali naquele sofá.

  - O que houve mãe, por que você veio de repente?

  - Vim lhe levar pra morar comigo.

  - Mãe, eu tenho 21 anos. Acho que já sou bem grandinho pra saber me virar.

  Ela não se conforma ao ver aquele que um dia foi uma criança tão meiga e que agora se transformara em um monstro.

  - Está satisfeita, Raquel? – falou, rindo cinicamente, Carlos.

  - Já vão começar a brigar? Que droga – falou Júnior enfurecido. Eu me transformei nisso que sou por causa do péssimo exemplo que tive de vocês, sabia?

  Raquel começou a chorar. Carlos saiu para o escritório.

  - Será que não posso ter paz? – grita Júnior, já saindo pra fora.

  Pegou o carro e saiu rapidamente pra rua.

  - Oi, Sílvia – fala ele, pelo celular. Após alguns minutos, ela acordou e atendeu.

  - Oi, meu amor. O que houve? – perguntou ela preocupada, ao ouvir aquela voz que ela bem conhecia, de quando Júnior estava desesperadamente enraivecido.

  - Vou dormir aí com você, tá?

  - Está bem, amor. Vai ser ótimo.

  Não demora muito para Carlos Júnior chegar. Entrou e nem olhou para Sílvia que estava sem roupa, esperando a maravilhosa noite que os dois teriam. Jogou-se na cama, fechou os olhos e falou:

  - Hoje só quero dormir em paz.

   Ela vestiu-se novamente desiludida e deitou-se ao lado de Júnior.

Escrito por Anthony Olliver às 18h35
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Rua 100, Parque Piauí II, Timon, 05 de junho de 2002

 

   A Rua 100, do parque Piauí II, estava lotada de gente. Em um tiroteio, envolvendo usuários de drogas e a polícia, morreu uma adolescente de 15 anos.

   A seguinte notícia, veiculava nos principais jornais de Teresina e de Timon:

    Em um tiroteio entre usuários de drogas de alta periculosidade que comandam o mundo do crime na periferia de Timon e policiais da força tática, morre uma possível usuária. A adolescente M.S.S. de apenas 15 anos, que aproximadamente dois anos fazia parte da pequena gangue, que era responsável por pequenos furtos no centro e, em bairros nobres de Timon, foi alvejada acidentalmente por um policial, ao tentar fugir, após este dar voz de prisão.

   Maria do Socorro Sousa, a adolescente morta no tiroteio, era filha do funcionário público Joaquim Silva e da manicure Maria dos Remédios. A pequena família era membro da igreja adventista há muito tempo. Socorro, como era conhecida, há dois anos fazia um trabalho de evangelização para os drogados. 

   Socorro estava muito feliz por finalmente ter convencido aqueles três jovens a irem à igreja. Ela sentia pena deles, pois bem sabia que eles não queriam estar naquela situação desumana.                     

Uma viatura chegou de repente no local e um policial desceu dando ordem de prisão para os quatro jovens que conversavam.    Os outros não reagiram, mas Socorro saiu correndo, apavorada. Um dos policiais sacou a arma e a mandou parar, mas ela, com medo, tentou correr mais ainda. O policial então não hesitou e disparou a arma. Uma bala atingiu a cabeça de Socorro que caiu já sem vida no chão.

  Os três garotos que estavam sendo evangelizados por Socorro fugiram e disparam alguns tiros, mas não atingiram nenhum dos policiais que fugiram do local na viatura.

 

                                        ***

 

   Maria dos remédios olhava o corpo de Socorro ali dentro do caixão e, como se fosse um filme, lembrou-se de toda a vida, breve, mas feliz que teve a filha. Os primeiros passos, a primeira palavra que chamara: um “mamãe” meio gozado, que fazia Joaquim, seu pai gargalhar. Aqueles olhos que tinham um brilho especial, principalmente, quando chegava a hora de ir à igreja e à escola.

   Socorro era uma aluna da escola pública ali no parque Piauí II. Sempre se destacava em tudo, tinha grande facilidade para discursar, por isso era ótima nos seminários. Seu maior sonho era se formar em jornalismo; mesmo cursando ainda o segundo ano, já tinha um projeto de curso para a faculdade. Queria mostrar o lado bom da periferia de Timon, que a imprensa tem tanto preconceito. Ela queria mostrar que Timon não é, como alguns Teresinenses ignorantes falam, a periferia de Teresina. 

Escrito por Anthony Olliver às 18h34
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Caxias, 05 de junho de 2002

 

   Sílvia entrou no hotel, sorriu para a moça da recepção e subiu a escada lentamente. Chegou ao quarto, onde Júnior estava a esperar. A porta estava só encostada. Ela bateu e entrou, não havia ninguém. Livrou-se das sandálias e jogou-se na cama.

   Meia hora depois, Júnior desceu desesperado:

  - Ela está morta! Mataram ela!

   A recepcionista falou, aproximando-se de Júnior:

  - O que houve rapaz?

  - Minha companheira está morta – falou Júnior, chorando.

   Um dos seguranças do hotel subiu com Júnior até o quarto, onde encontra Sílvia com uma faca cravada no peito esquerdo.  O sangue ainda saía do local perfurado e ensopava a colcha da cama. O rosto de Sílvia estava com uma expressão de horror. O segurança olhou com uma cara de medo aquele corpo tão lindo, e sem vida. Era uma pena, uma mulher que teria toda uma vida pela frente, tê-la perdido tão cedo.

   - Pois é, já está morta, senhor Carlos.        

  O vento soprava brandamente as cortinas da janela. Carlos Jr. sentou-se ao lado do corpo sem vida de Sílvia e passou a mão naquela testa tão fria.

 

                                           ***

 

   Os jornais de Teresina e de Timon esqueceram rapidamente o caso da “negrinha da favela” para publicar algo que, com certeza, renderia muito mais comentários e audiência. O caso de Sílvia Arruda estava estampado nas primeiras páginas dos principais jornais e, em destaque, nos portais e blogs de todo Piauí e Maranhão. A matéria era mais ou menos assim:

   A cidade de Teresina está chocada com a barbaridade cometida em um hotel na cidade de Caxias-MA. Na manhã de hoje foi encontrado o corpo da empresária Sílvia Arruda, com uma faca cravada no peito esquerdo. A polícia suspeita de assalto, pois Sílvia era uma pessoa querida de todos e não tinha nenhuma ligação com traficantes, como certo blog de Timon relatou, por isso fica descartada a possibilidade de o crime ser um acerto de contas. 

   Silvia estava em companhia do empresário Carlos Júnior na cidade de Caxias a tratar de negócios, já que os dois eram sócios. Carlos Júnior não quis comentar a respeito do caso. O Dr. Paulo Arruda e a família esperam pela justiça. Sílvia, como comentou sua mãe, a Dra. Márcia, era um exemplo de filha e de pessoa.  

    Eis aí alguns comentários dos leitores de um determinado portal que publicou a matéria acima:

   É uma pena que pessoas como ela sejam tiradas da vida tão jovens. Com certeza nosso país só terá a perder.

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   E se o blog de Timon tiver razão? Só por que a garota é filha de papaizinho não pode ser envolvida com traficantes? Pra falar a verdade a maioria dos traficantes são os playboys que moram em bairros nobres de Teresina.

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  Verdade. Assim como nem todo mundo que mora na favela é bandido, nem todos que moram nos bairros chiques são cidadãos de bem.

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   Ficam as nossas condolências à família enlutada. E também a revolta com esses imbecis que não tem que falar. Sílvia era uma pessoa de bem e um exemplo para os jovens de Teresina.

Escrito por Anthony Olliver às 18h32
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Teresina, Praça Saraiva 06 de junho de 2002

 

   Mário era um garoto moreno, magro e andava pelas ruas com um calção esfarrapado.  Perdera o pai e mãe muito cedo. Lembrava-se apenas da mãe, mas uma lembrança como se fosse de um sonho.

   Juntara-se há dois anos àquele grupo de moradores de rua, da Praça Saraiva. Era um grupo de aproximadamente 15 pessoas, dormiam ao lado da velha igreja. De vez em quando, apareciam algumas almas caridosas com uma cesta básica para aquele pessoal. A história de todos ali era bem parecida. Seu João era o mais velho do grupo. Tinha 68 anos e era cearense, veio na época da seca de 1958 com um pequeno grupo de retirantes para a capital piauiense.

   Mário sentou-se em um dos bancos da praça e ficou olhando o movimento. Alguns casais namorando naquela velha praça arborizada e linda. Quantas lindas histórias de amor aconteceram ali naquele lugar! Mário suspira e vê que a vida, apesar de todos os seus problemas, é realmente bela.

   Um rapaz alto e magro chegou, olhou para ele e não falou nada. Olhou para aquele grupo de pessoas maltrapilhas, ali, jogadas como se fossem animais e sentiu pena delas, mas a falta de altruísmo não deixou aquele rapaz aproximar-se daquele pequeno grupo. Ficou chorando ali no banco e pediu ao seu Deus para abençoar aqueles mendigos, mas não faz nada para que a sua prece se concretizasse. Muita fé e pouca ação não vale nada. A fé sem as obras é morta.

   Mário saiu à rua para procurar algo para comer, se não ganhar moedas dos transeuntes, procurará resto de comida no lixo.

   Uma garota aproximou-se dele e falou:

  - Oi, garoto, você está com fome?

  - Sim, e muita.

  - Venha comigo que lhe ajudo a conseguir comida.

   Mário acompanhou aquela garota, sem pensar muito em como ela conseguiria comida, movido pela fome.

   Ela entrou em um pequeno comércio e pegou uma caixa de bombom. Olhou para Mário fez um sinal e os dois saíram correndo do local.

  - Por que você fez isso? – perguntou Mário.

  - Eu sempre faço isso – respondeu a garota.

   Quando os dois chegaram à praça, o dono do comércio já estava lá. Mário aproximou-se, já esperando a repreensão de seu João, o líder do grupo. Ele olhou sério para Mário e falou:

  - Olhe, garoto. Você vai ter que sair daqui. Somos mendigos, mas honestos.

   Mário fez um bico querendo chorar, mas viu que seu João estava com toda razão. Pegou seu pequeno radinho a pilha e o quadro com a foto cinzenta, quase que apagada, dos pais e saiu sem direção. Maria, a garota que tinha cometido o roubo com ele, acompanhou-o calada.

   Alguns minutos depois, quando já estavam na Praça da CEPISA, Maria olhou triste para Mário e falou:

  - Aqui a gente se separa. Perdoa-me pelo que lhe fiz, Mário.

  - Não. A gente está nessa junto, ok? É melhor dois pivetes juntos que separados – falou ele, rindo.

  - Está bem, então – falou Maria, rindo também. E para onde a gente vai?

  - A gente vai para Timon – falou Mário. O clima lá é mais agradável para gente como nós – começou a rir novamente.

   Maria riu também e foram andando e rindo até atravessar a ponte José Sarney e chegar a Timon.

   Maria tinha 13 anos e Mário 15. Maria também era órfã de mãe e não sabia se o pai ainda era vivo.

Escrito por Anthony Olliver às 18h30
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Caxias, o6 de junho de 2002

 

     - Eu tinha saído, policial. Quando entrei no quarto vi só o corpo de Sílvia estendido na cama com a faca no peito, sangrando muito. – falou Júnior, com voz chorosa.

   - E vocês não viram ninguém suspeito? – perguntou o delegado ao segurança e à recepcionista do hotel.

  - Não, senhor – responde o segurança.

  - Ok. Nós vamos fazer uma investigação sobre as pessoas que estiveram no hotel no dia do crime.

   A investigação foi feita. Havia três principais suspeitos: um paraguaio, que esteve em Teresina um dia antes do crime e veio à Caxias, justamente no mesmo dia que Silvia foi assassinada, um garoto do interior piauiense que não se sabia a causa da sua estadia em Caxias e um senhor de aproximadamente 50 anos que ficou pedindo informação sobre Sílvia ao segurança do hotel.

   Infelizmente, o hotel não era equipado com câmaras, então estaria difícil descobrir quem entrou no quarto de Carlos Jr.

  - Então estou liberado, senhor delegado?

  - Sim, Júnior.

   Carlos Jr despediu-se do delegado e saiu daquela sala sombria.

 

Teresina, 08 de junho de 2002

 

   Nalbert era uma das poucas pessoas que sabia quem realmente tinha matado Sílvia. Apesar de ter cometido vários furtos, ter atirado no caixa de uma loja em Timon, ele era um bom rapaz. E estava com muito remorso. Deveria ou não deveria falar a verdade? – pensou Nalbert. Aquela situação estava tomando um rumo incontrolável, e ele sabia que talvez fosse a única pessoa que poderia esclarecer os fatos e mostrar a verdade.

   E a vida de Sílvia? Seria uma vergonha para a família expô-la, principalmente, agora depois da morte dela. Mas, afinal, a família dela sabia mais do que ninguém quem realmente era Sílvia. Todos os seus podres e defeitos.

   Ela estava longe de ser a santinha que a imprensa teresinense mostrava. Resolveu, então, ligar para seu amigo Filipe:

  - Você está mesmo disposto a fazer isso, Nalbert? – fala Filipe ao ouvir a resolução de Nalbert.

  - Sim, amigo. Decidi que é melhor que todos saibam a verdade.

   Depois do almoço, Nalbert resolveu ir a Caxias e relatar toda verdade sobre a morte de Sílvia Arruda. Ele sabia as consequências, mas era bom ter a consciência tranquila e também já era hora de parar com aquela vida criminosa, que ele só entrou por causa das más companhias, inclusive, do Júnior.

   Chegando à cidade de Timon, Nalbert resolveu lanchar. Estacionou o carro e entrou em uma pizzaria. Após lanchar e pagar a conta, saiu rapidamente para seguir viagem, mas ao tentar abrir a porta do carro foi alvejado por uma bala na barriga e outra na cabeça. Ele ainda olhou para o atirador que se aproximou e pegou a carteira, mas sua visão foi ficando embaçada, até que aquela pessoa que Nalbert sabia quem era tornou-se totalmente um vulto. Ele ainda disse, suspirando:

  - Seu idiota, você me paga! – falou isso e morreu.

   Mais um crime. E era mais um crime envolvendo a alta sociedade Teresinense, se bem que Nalbert era apenas um capacho de Júnior. Não poderia ser considerado uma figura importante da sociedade teresinense.

Escrito por Anthony Olliver às 18h28
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Timon, 08 de junho de 2002

 

  - Mas que droga! Mataram o Nalbert. Eu nunca achei que ia acontecer isso – lamentava-se Filipe para sua esposa Alessandra.

   Alessandra era uma jovem senhora de apenas 19 anos. Casara-se com Filipe aos 16. Ela não sabia muito sobre a vida do esposo. Só que ele trabalhava para o Dr. Carlos Júnior, como respeitosamente o chamava. 

  - Você tem que contar a verdade para polícia, Filipe – falou Alessandra desesperada.

  - Pra ele me matar também como fez com Nalbert? Eu não sou louco, meu amor. – Filipe começou a chorar. Ele bem sabia que era culpado da morte de Nalbert, pois ele mesmo tinha traído o amigo.

  - Calma, meu amor. Nada de mal vai nos acontecer. – falou Alessandra, aproximando-se de Filipe e passando a mão no rosto dele.

  - Você não sabe de nada! E é melhor que não saiba mesmo. Ah, Alessandra... – não conseguiu concluir a frase e começou a chorar como uma criança.

   Ela ficou meio assombrada. Sabia que o marido não era nem um pouco emotivo, nem dramático. Deveria estar acontecendo algo muito sério, para ele estar chorando desesperadamente assim.

  - Olha, Alessandra – falou um pouco mais calmo Filipe, alguns segundos depois. Você tem que ir embora. Afastar-se de mim. Eu vou morrer e se você ficar comigo, morrerá também. Eu a amo muito. Por favor, vá embora.

   Ela agora tinha certeza que a situação era deveras séria. Ela ficaria e morreria por uma causa que ela nem sabia o que era, ou abandonaria o homem da sua vida, deixando-o sozinho, esperando a morte? Era uma situação muito delicada. Ela amava muito Filipe e sabia que ele a amava também, a ponto de não querer que ela morresse com ele.

   Alessandra começou a fazer as malas, chorando muito. Lembrou-se do tempo em que conheceu Filipe, aquele rapaz alto e brincalhão. Conhecera-o na Avenida Piauí, durante o Zé Pereira. Sua prima, Adalgiza, apresentou-o para ela. Fora tão mágico aquele momento. O primeiro olhar. Os dois pulando um ao lado do outro na avenida. Ao som da banda de axé. Todo mundo envolvido na folia e eles envolvido naquela paixão louca, que poderia ser uma simples paixão de carnaval, mas agora ela sabia que não era. Pois os dois se tornaram marido e mulher, casados na Catedral de São José.

   Foi ali na avenida que deram o primeiro beijo. Tudo aconteceu muito rápido. Os dois embriagados. Ele perguntou se ela aceitava ser sua mulher e ela falou que sim. No outro dia, acordou com a cabeça quase a explodir. Lembrando-se daquele maluco que a conhecera e que a pedira em casamento. Essas loucuras só podem mesmo acontecer em um carnaval fora de época, com um casal de bêbados. Começou a rir, mas seu riso solitário foi interrompido por batidas na porta. Foi atender e era ele. O rapaz que a pedira em casamento naquela noite passada.

   Ela riu e falou – você não desiste da presa, não é? Ele também riu e falou – quando vejo que vale a pena, não desisto nunca. Os dois começaram então o namoro e logo se casaram. E agora estava ali, ela indo embora para não morrer juntamente com o marido. Ela jogou as roupas no chão, encarou Filipe e falou:

  - Olhe aqui, eu casei com um homem que amo muito. A gente tinha muitos sonhos que nunca realizamos, mas que ainda poderemos realizar. Então, Filipe, conte-me o que está acontecendo, que juntos vamos resolver essa situação. Eu passei todos os bons momentos com você e não posso abandoná-lo agora.

  - Eu não posso e você não pode pagar pelos erros que cometi.

  - Eu lhe juro que a gente vai resolver isso e vai sair tudo bem pra gente. Confia em mim.

  - Está bem – Filipe resolveu finalmente contar o caso a sua esposa.

   Ele olhou para ela, pensou um pouco naquela séria decisão, afinal, não era justo envolver Alessandra que era inocente naquele caso. Mas depois de muita insistência dela, ele resolveu contar-lhe toda a verdade.

 

 

 

 

 

Esperantina, 09 de junho de 2002

 

   Os jornais teresinenses noticiavam a morte de Nalbert, mas sem nunca esquecer o caso Sílvia Arruda. Será que as duas mortes estariam ligadas? Ninguém sabia. A morte de Nalbert estava já definida tanto pela imprensa, quanto pela polícia, que fora um latrocínio, pois a carteira não fora encontrada com ele.

   Júnior seguia em casa, sem praticamente sair e nem falar com ninguém, a não ser por e-mail ou pelo celular. Carlos estava preocupado com o filho. Sabia que ele estava muito abalado com a morte de Sílvia e também de seu amigo Nalbert. Sempre que ia consolá-lo, ele falava emburrado, que não queria tocar naquele assunto.

   Carlos resolveu, então, ir até Esperantina, tentar convencer Raquel a vir e ver se conseguia dar um jeito naquela situação.

   Meio dia, Carlos chegou à cidade de Esperantina. Raquel falou ao vê-lo chegando:

  - Problemas com o seu filho? – falou ela ironicamente ao ver a cara de desespero de Carlos.

  - Por favor, Raquel, esse não é um momento de pensarmos em velhas mágoas. O Júnior errou muito, mas o momento é delicado para ele, tente entender.

  - Eu entendo. Com a má influência do pai, ele não poderia ter se transformado em coisa boa, não é?

  - Eu sei que fui um péssimo exemplo, Raquel. Estamos precisando de você.

   Raquel quis ainda manter o orgulho e tentar passar uma arrogância fingida, pois ela não era nem um pouco arrogante, mas não conseguiu. Seu coração não suportou vendo a dor daquele homem que ela ainda amava, apesar de negar para todos e tentar negar inutilmente até para si mesma. As lágrimas denunciaram o que ela verdadeiramente sentia naquele momento. Não era raiva, como ela queria demonstrar, mas compaixão.

Escrito por Anthony Olliver às 18h26
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Teresina 11 de junho de 2002

 

  Carlos estava sentado naquela mesa, pensando em tudo que tinha acontecido nos últimos anos. O divórcio com Raquel, a mulher que ele ama. O filho envolvido com bandidos – se bem que ele, Júnior, era o pior dos bandidos. O caso que teve com Bruna. Ah, Bruna! Lembrou-se da sua empregada amante, que fora despedida depois que Júnior os pegou se beijando no sofá. 

   Pelo que ficou sabendo, ela ficou grávida e morreu durante o parto, mas a criança sobreviveu. Seria aquela criança filha dele? E onde estaria ela agora? Mesmo que não fosse sua filha, seria bom ele adotá-la. Mas como encontrar uma garota que ele nem sabia o nome? Ela deve ter uns 13 ou 14 anos. Já sei – pensou ele. Vou ver se encontro os pais de Bruna – era esse o nome da empregada.

    Foi até Timon, Vila Angélica. Era lá onde residia Bruna. Ele bem conhecia a casa. Estacionou o carro em frente à velha casa de pau a pique. Um garoto de aproximadamente 8 anos aproximou-se dele e falou:

  - Não mora ninguém mais aí não, senhor.

  - E onde eles moram? – perguntou Carlos.

  - Dona Bruna morreu.

  - Sim, eu sei, mas os pais dela foram embora?

  - Morreram também, senhor.

   A situação estava complicada agora. Se a filha de Bruna ainda fosse viva, mas, com certeza, era uma marginalzinha drogada – pensou Carlos.

  - Você sabe me dizer alguma coisa sobre a filha da Bruna?

  - Sim, senhor. Ela dorme próximo à ponte metálica.

   Carlos levou um susto. Seria possível, sua filha ser uma moradora de rua? Dos seus olhos desceram duas lágrimas. O garoto percebeu e falou carinhosamente:

  - Não fica triste não, senhor. Deus cuida dela e não vai deixá-la morrer de fome.

   Carlos passou a mão na cabeça daquele menino. Seria tão bom se todos fossem como as crianças – pensou.

  - Obrigado, filho. Vou ver se a encontro. – falou Carlos, dando ao garoto uma nota de 10 reais.  – Tome, isso é pra você lanchar.

  - Não, senhor, leve para Maria. Ela precisa mais que eu – falou o garoto. Eu tenho pai e mãe para cuidar de mim. E todo dia eu almoço e janto. Tem dia que não tomo café da manhã, mas aí já é querer demais, não é?

   Os olhos de Carlos encheram-se de lágrimas. Ele pode ver ali a desigualdade que está crescendo em nosso país, até mesmo mais que a social: a da felicidade. Ele que, às vezes, reclamava porque seu bife estava mal passado e jogava toda a comida no lixo. Tinha dinheiro e nem precisava de tudo, mas era infeliz, e aquele garoto que não tinha café da manhã todo dia era muito feliz.

  - Fique tranquilo. – falou Carlos. Eu vou ajudá-la também. Tome – estendeu um cheque com um bom valor ao garoto.  - Isso é para seu pai montar uma vendinha, pra que você tenha todo dia seu café da manhã.

   Carlos saiu dali triste e ao mesmo tempo feliz. Triste por ver a miséria que assola o nosso país, uma das maiores potências econômica do mundo, mas feliz por ajudar uma família a sair dessa miséria. E, mais feliz ainda ficou Carlos por saber que ia rever e adotar a filha de Bruna, que poderia também ser filha dele. Maria – pensou. Deve ser a cara da mãe. Saiu no carro pensando no rosto daquela que um dia viveu grandes momentos de prazer ao lado dele.

 

 

Timon, Parque Piauí II

 

Carlos ia passando na Rua 100 do parque Piauí II quando viu um casal de garotos magros andando pela rua. O menino devia ter uns 15 anos. Pele morena, queimada do sol, cabelo assanhado e uma cicatriz no supercílio. A garota devia ter no máximo 14 anos. Era também magra e bem mais morena que o garoto. Cabelo enrolado, olhos escuros. Era a cara de Bruna. Com certeza, era aquela a tal garota. Ele parou o carro e chama-os:

  - Oi, você é a Maria? – perguntou ele, com o coração palpitando de tanta emoção, pois sabia que era ela. O rosto dela lembrava muito o de Júnior e até o de Carlos, mas seu corpo, o sorriso era idêntico ao de Bruna.

   Carlos pôde ver ali depois de tantos anos, sua grande amante de volta. Sentia uma grande atração por ela, mas não uma atração sexual, como sentia por Bruna. Aquilo que sentia por aquela menina era amor paterno.

   - Sim, sou eu. – falou a menina nervosa, com medo daquele homem ser mais um aventureiro que queria abusar dela. Mas ao mesmo tempo em que sentia medo, Maria conseguiu ver nos olhos daquele homem um amor que ela ainda não conhecia. Um amor de pai, ou até mesmo de mãe. Mas Maria nunca tivera um nem o outro. O único amor que ela conhecia era o amor do seu amigo Mário, que, às vezes, era um amor de irmão e, às vezes, amor de marido ou namorado.

  - Entrem no carro. No caminho, eu conto a vocês tudo – falou Carlos.

   Maria já ia entrando no carro, quando Mário segurou a mão dela.

  - O que você quer? – perguntou Mário, pondo-se em frente de Maria, protegendo-a daquele homem, que, com certeza, só queria abusar dela e depois jogá-la na rua novamente.

  - Desculpe, garoto – falou Carlos. Sei que agi errado, sem me explicar.

   Carlos saiu do carro e contou toda a sua história para os dois garotos. Os olhos de Maria brilharam de felicidade e correu para abraçar seu pai. Carlos não se importou com as mãos sujas dela que estavam manchando sua camisa branca. Camisas a gente consegue quantas quiser – pensou ele, mas uma filha a gente só encontra quando é abençoado por Deus. Ele chorou emocionado. Ela também chorou muito grudada no ombro daquele homem que era seu pai.

   Agora ela comeria todo dia, talvez, até ganhasse uma boneca de presente. Uma boneca que ela sempre sonhou ter e ficava olhando e desejando nas vitrines das lojas até ser enxotada pelos vendedores.

  - Você vai me abandonar, Maria? – Mário interrompeu aquele momento feliz de pai e filha, para saber qual seria o destino dele agora.

   Maria tem muita sorte – pensou ele. Encontrou o seu pai, mas ele nunca poderia encontrar os dele, porque eles estavam mortos. Mas ele ia ficar sozinho na rua. Esperaria até ficar maior e se casaria com Maria. Mas será que ela ainda queria ser a namorada dele? Agora ela tinha um pai e pelo jeito um pai rico, que a colocaria em um colégio particular em Teresina. Lá, ela conheceria um garoto rico, apaixonar-se-iam um do outro e casariam. Ele nunca mais veria Maria, ou quem sabe até a veria, algum dia, quando entrasse em um restaurante de luxo, procurando resto de comida e ela estivesse almoçando lá com seu namorado rico. Os dois sairiam dali no carro de luxo e ele comeria o resto de comida do prato de Maria, mas não comeria nunca do prato do namorado dela. Era muito orgulhoso.

  - Você vem morar com a gente. Vai trabalhar lá em casa. – falou Carlos.

  - Eu? – perguntou surpreso, Mário.

  - Sim, você, meu filho.

   Os dois garotos entraram no carro de Carlos e foram sorrindo, cheios de alegria até chegarem à casa de Carlos. Eles ficaram boquiabertos com tanta beleza que tinha naquela casa. Sofá de luxo. Quadros lindos na parede e uma televisão de plasma como eles nunca tinham visto na vida.

Escrito por Anthony Olliver às 18h25
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Caxias, 11 de junho de 2002

 

   Filipe saiu de Timon de manhazinha, temendo algum atentado por parte do matador de Sílvia. Alessandra ficou em casa, pedindo a Deus para nada de mal acontecesse a ele. Ela sabia que era um sério risco que os dois estavam correndo, mas só Filipe poderia esclarecer os fatos, que até ali não estavam nem um pouco condizentes com a verdade.

   Enfim, Filipe chegou a Caxias e foi direto à delegacia. Chegando lá, encontrou o delegado e contou tudo a ele. O delegado falou:

  - Essa acusação é séria, meu rapaz. Você tem provas disso que está dizendo?

   Sim, ele tinha. Entregou ao delegado um pen driver:

  - Tem aqui a gravação do crime.

  - Mas como é isso? Eles gravaram tudo?

  - Não, seu delegado. Essa gravação é das câmeras de segurança do hotel.

  - Mas o segurança e recepcionista afirmaram que o hotel não tinha câmera.

  - Eles devem ter sido bem pagos para falarem isso, assim como os policiais que foram fazer investigações no hotel. Eu consegui isso com funcionário que não quer se envolver no caso, temendo até pela própria vida, pois, como o senhor deve saber, já morreu gente por causa disso.

  - O senhor está falando de Nalbert? Mas a polícia de Timon afirmou que foi latrocínio.

  - Todo mundo pensou isso, delegado. Mas quando o senhor vir esses vídeos vai mudar de opinião.

   O delegado colocou o pen driver no notebook e foi se assustando cada vez mais à medida que via as imagens.

  - Pois bem, senhor Filipe. Não tem mais o que duvidar a respeito do caso. Creio que o juiz irá diminuir sua pena, por ter se entregado e contado toda a verdade. Como o senhor já esperava, vai ficar detido, esperando o julgamento e, agora mesmo, estarei providenciando junto aos delegados de Teresina e Timon a prisão dos outros dois envolvidos.

  - Eu vim porque sabia que era a coisa certa, delegado, e quero pagar pelo que fiz.

 

 

Teresina, 12 de junho de 2002

 

   Raquel quando soube da adoção de Maria por Carlos ficou muito feliz e comovida. Começou a pensar se já não era hora de dar uma nova chance para ele. Ela ainda o amava e sabia que ele a amava. A única razão para não estarem juntos era o egoísmo de Carlos, que Raquel estava vendo agora que não existia mais. Ela resolveu, então, ligar para ele.

  - Oi, Raquel – atendeu ele.

  - Parabéns pela atitude que tomou, Carlos. Eu pensava que não ia falar isso nunca mais, mas me orgulho de você.

  - Fiz somente minha obrigação de pai. Na verdade, eu fui até cruel, deixando-a abandonada na rua durante 15 anos. E se você não tinha mais orgulho de mim, sei que é porque não tinha motivo.

  - Se você precisar de alguém para ser mãe dessa garota, pode contar comigo. Garotas precisam de uma influência feminina, ou você não acha?

  - Claro que sim, Raquel. As portas da minha casa sempre estarão abertas para você.

  - Eu irei. Mas não queria ir apenas como mãe de Maria, mas como esposa do pai dela.

  - Eu sei que eu também preciso, até mais que Maria, de você, Raquel. Eu tenho uma coisa para lhe dizer. Foram muito difíceis esses anos sem você. Você é a mulher que amo.

  - Você também é o homem que amo, Carlos.

Escrito por Anthony Olliver às 18h20
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Caxias, 05 de junho de 2002 (o dia do crime)

 

   Carlos Jr. era apaixonado por Sílvia. Ele não resistiu ao vê-la namorando aquele paraguaio, que além de velho, diziam ser mafioso. Ele tentou convencê-la de desistir do namoro, mas ela falou que estava gostando de Ramon – esse era o nome do paraguaio.

   Júnior, então, planejara com seus dois amigos Nalbert e Filipe, a morte de Ramon.

   Júnior sabia que Ramon tinha uma festa marcada na cidade de Caxias. Essa festa era a oficialização do namoro dele com Sílvia. Então, planejou a emboscada. Os dois amigos de Júnior ficaram em um quarto de hotel em frente ao dele.

   Filipe, como sempre, era um covarde e acabou por contar o plano a Sílvia. Ela ligou para Júnior e falou que queria vê-lo. Ele deu o número do quarto dele a Sílvia, sem saber que ela queria matá-lo.

   Ela entrou no quarto com uma faca na mão e tentou atacar Júnior, mas ele se desviou, tomou a faca dela e acertou-lhe o peito esquerdo. Ele correu até o quarto dos amigos, pediu aos dois que fugissem e que ele tentaria solucionar aquele problema, sem prejudicá-los.

   Os dois amigos de Júnior foram embora e Carlos Jr. desceu as escadas, gritando:

  - Ela está mota! Mataram-na!

   Júnior deu uma boa quantia de dinheiro ao segurança do hotel, para que esse desse um fim nas filmagens das câmeras de segurança. Outro segurança apossou-se das gravações e depois as vendeu a Filipe.

   Nalbert tentara contar a verdade na delegacia de Caxias, dias depois, mas antes de viajar confidenciara seu plano a Filipe e este contou tudo a Júnior, que pessoalmente matara Nalbert, após este acabar de lanchar em uma pizzaria na cidade de Timon.

 

 

Timon, Rua 100 parque Piauí II, 1º de julho de 2002

 

Júnior, Marcos Antônio e Filipe foram presos. Júnior, com um bom advogado e auxiliado pela cumplicidade que tinha com o sargento Marcondes, conseguiu um habeas corpus, que ninguém entendeu como.

Grande parte do patrimônio de Carlos estava registrada em nome de Carlos Jr. Ele, então, resguardado pelo direito vendeu tudo que estava em nome dele e foi embora para os Estados Unidos.

   Carlos e Raquel ficaram desesperados, mas sem poder fazer nada. Pegaram, então, o que restou e venderam. Carlos comprou uma casinha na Rua 100, Parque Piauí II em Timon, onde começaram a reorganizar as suas vidas.

   Raquel montou a escola de música para meninos carentes – projeto que tinha na cidade de Esperantina – ali, num salãozinho, próximo a casa onde moram.

   A escola de música Socorro Sousa, em homenagem à garota assassinada ali na Rua 100, conta com cerca de 50 alunos, inclusive, Mário e Maria, que estavam indo muito bem.

  

Rua 100, parque Piauí II, Timon, 1º de julho de 2012

 

   Júnior estava preso por matar o marido da sua amante nos Estados Unidos. Já fora julgado e condenado à prisão perpétua. Ele ganhara de um colega da prisão uma bíblia de presente. Lia-a todas as noites e chorava, lembrando-se dos conselhos da mãe. Ela sempre mandava Júnior ler aquele livro e ele nunca lia, preferia assistir a filmes de ação e se divertir com as cenas de morte. Quanto mais reais e mais violentas eram as cenas, mais ele adorava. E agora estava ali vivendo o seu próprio filme. Um filme que só acabaria com a morte.

   Carlos estava aposentado. Dedicava-se exclusivamente agora, ao lado da sua esposa, à escola de música Socorro Sousa.

   Filipe havia cumprido sua pena na cadeia e estava trabalhando como autônomo. Sua esposa, Alessandra, já estava concluindo o tão sonhado curso de medicina. Os dois cuidavam com todo carinho e dedicação do seu pequeno filhinho de apenas dois anos de idade.

   Mário e Maria haviam se casado há dois anos e ela estava grávida de oito meses.  Os dois estavam muito felizes. Iam todas as noites para a igreja Batista, juntamente com Raquel e Carlos. Mário era baixista na igreja, Maria tocava piano, mas agora estava deixando o piano por conta de Aline, já que seu barrigão atrapalhava um pouco.

   E, como todo conto de fadas, todos foram felizes para sempre, exceto Júnior, que estava condenado à prisão perpétua nos EUA e também Sílvia e Nalbert, que já estavam em prisão perpétua, e eu por terminar este livro quando ainda tinha muita coisa para acontecer, mas juro que a culpa não é minha, e sim, dos meus dedos que estão lamentando muito de tanto bater nas teclas do computador.

Escrito por Anthony Olliver às 18h17
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